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2020.02.10 15:30 KNWRV Escrevi esse conto e gostaria de um feedback

O funeral
Na estante de madeira, uma coleção de livros; uma televisão sobre a bancada, lâmpada fosca de tungstênio, ele se encontrava deitado sobre o teclado do computador, semi-desperto, na tela do computador se lia: “A vida e a morte de zdweddddddd...”. José Augusto era escritor, vivia de pequenos contos, algumas traduções aqui e outras ali. Dava pra pagar o pequeno apartamento em que vivia. Não tinha mais companhia, terminara com a namorada, o cachorro Tufão morreu há um mês. Vivia, ainda que mal vivia.
Prim,Prim...Ah! Acordou de sobressalto, era aquele maldito telefone, pra quê pagava aquela linha? Ninguém mais ligava ali, bom mas alguém ligava... Foi caminhando zonzo, no andar dos bêbados. Alô! É da casaa do senhor José Augustoo? – falava como se puxasse a última vogal de algumas palavras ou era a ligação- É sim. Quem fala? É Helena, mulher do Leonardo. Do Leonardo? Como ele tá? Já faz muito tempo que eu falei com ele! É assim...humf,humf... ele saiu dessa para uma melhor- disse entre choramingos. Meu deus. O funeral vai ser hoje à tarde, uma da tarde, seria bom se você aparecesse no funeral, ele pediu que eu te entregasse algo. Eu vou sim, claro que vou- falava estupefato- Tá certo... Tá certo. Funerária Jerusalém. Tá certo.
Morto, defunto, funeral... hoje? Uma hora? Mas como? Quando? Ele tava doente? Por que ele não falou nada? Faz o quê? Cinco anos? Seis? Sentou-se consternado, novamente, em frente do computador. Eram oito horas e trinta minutos, depois dessa mórbida conversa sentiu seu lábio rachado como as terras áridas do deserto, levantou-se da cadeira, a visão ficou turva e sentiu uma certa vertigem. Escuridão, tudo negro... morte? Morte? Não, ainda não. Andou meio bambo até a cozinha, retirou uma vasilha de água da geladeira. Bebeu direto dela, os copos estavam sujos. Funerária Jerusalém. Eu vou ter que pesquisar onde fica. Voltou ao quarto em duas passadas, sentou todo afobado, abriu o navegador, digitou no site de busca: Funerária Jerusalém. Descobriu que ficava na rua Azul do bairro que vivia, eram três quadras de distância, iria a pé, estava decidido.
Preto, é claro! Tem que ir de preto. Não poderia ir com a regata branca amarelada e esburacada na altura das axilas e nem mesmo o short florido que trajava no momento. Saiu do cômodo e voou pelo quarto para o armário. Cadê? Cadê? Aqui. Tirou uma amassada camisa do armário. Eu passo? É tenho que passar, mas primeiro a calça. Cadê? Cadê? Aqui! Pegou uma calça negra, mas com um buraco na parte esquerda da calça. Tem outra? Não, não tem. Droga! Jogou a calça e a camisa na cama. Meias? Precisa de meias pretas? Melhor né? Cadê? Cadê? Não tem, branco é tranquilo, é só a meia, pegou o único tênis que tinha; claramente preto. O tênis estava deplorável, a camisa amassada e a calça furada, mas era o que ele tinha.
Tem que passar a camisa... passo? Eu passo... não pra quê? Ninguém vai reparar, ninguém sabe que José Augusto é apenas um fracassado de quarenta anos, ninguém sabe, nem saberá. Que horas são? Olhou o relógio, já eram doze horas, mas já? Quanto tempo foi perdido nas roupas? Talvez uma fenda o tempo se abriu e me sugou para dentro e eu não percebi? Talvez o preto fosse uma espécie de cor sagrada em que o contato possibilitava romper as barreiras da realidade, os questionamentos fluíam da cabeça de José Augusto tomando forma na realidade, enfim concluía sempre seus pensamentos com um: “Hmm... devo escrever uma história sobre isso”. Já eram doze horas, isso lhe era inegável, ainda que tentasse justificar com ideias de ficção científica. É realmente não dá para passar. Voltou à cozinha; abriu a geladeira, tinha um pequeno prato com um pedaço de carne, pegou a margarina, caminhou até o fogão, ligou-o, chama alta, derramou quase toda a margarina na frigideira, fritou o bife, o boi morto ardia no metal, chiando, o som agudo causava certa irritação em seus ouvidos, levou o dedo ao ouvido, evitando o som que em poucos segundos cessou. Cortou um pedaço de pão velho perdido pela cozinha em uma cesta perto da geladeira, pôs a carne nele, comeu em duas mordidas. Tomo banho? Cheirou-se, não havia odor algum, não, só troco de roupa. Voltou ao quarto, trocou o folgado short que usava pela camisa amassada e a calça rasgada. Era hora de ir ao funeral.
Saiu do apartamento, trancou a porta, desceu as escadas, abriu o pequeno portão. Começou a andar no quarteirão, o sol estava queimando, os prédios mais distantes apareciam em formas distorcidas em meio ao calor como se fossem visões de uma realidade que nunca existira. Passou o primeiro cruzamento; faltavam três; uma velha corcunda vestida com um vestido florido e com cabelos brancos que pareciam brilhar em meio ao sol esperava no segundo cruzamento, ela quer atravessar? Ajudar uma velha, eu sou o quê, um escoteiro? Isso é tão ridículo. José confrontava a ideia de ajudar uma velha a atravessar a rua e não fazer nada, não importava sua escolha ambas aos seus olhos lhe pareciam ridículas, a primeira era algo quase que irreal, algo como um drama de uma história sem sal, típicas do seu trabalho de escritor menor; a segunda porque em nada mudaria o destino das estrelas no universo, uma pequena ação em uma rua tão pequena, nada poderia mudar o significado do mundo, porém alguma ação de José Augusto já havia mudado o universo? Ele pesava ambas com cuidado, agindo com uma balança perfeitamente regrada, ele sentia o que cada uma poderia causar: no fim concluiu que ajudar ou não ajudar não importava.
Quem sabe a primeira me compre um lugar no céu. Acreditava no céu? Isso não se sabe, nem ele sabia disse ao certo. José ia à igreja algumas vezes, sabia decorado alguns salmos, o pai-nosso, a ave-maria, credo e mais algumas, o tempo que passara na Eucaristia e em sua Crisma, lhe fora cansativo, porém internalizara bem os comandos de Dona Susana, mas não chegou a concluir se tinha uma fé verdadeira ou imposta, a verdade que nem ele sabia no que acreditava: às vezes se baseava puramente na ciência outras vezes falava de coisas imateriais e justificava com destino e outras coisas assim. Era um ser curioso, um escritor sem muito valor, mas bastante curioso.
Com as dúvidas na cabeça e o sol sobre a cabeça, ele se aproximou da velha corcunda. Senhora quer ajuda? Obrigado, meu filho.- disse abrindo um sorriso com os dentes amarelos, demarcados pela falta de alguns, entre os buracos parecia haver um fogo que ardia de dentro de seu ser. Ele a pegou em sua mão, a mão era fria, como se ele sentisse a mão do falecido que veria no funeral. Cuidadosamente, primeiro um pé e depois um outro, cuidado com os carros. Senhora, não precisa se apressar, vamos devagar. Isso, devagar. A velha somente ficava calada, mostrando seu sorriso furado e amarelo. Enfim atravessaram a rua, com certa lentidão típica daqueles que atravessam para o outro lado da rua. Largou a mão fria já na calçada, olhou os olhos da velha que mais pareciam tragar toda a luz e não emitir nenhuma, desafiando os princípios físicos e disse: A senhora tem que tomar cuidad... Tá falando com quem otário?! Disse um garoto com boné para trás que passava pela rua.
José Augusto desviou seu olhar para o jovem que passou e depois retornou para onde deveria estar a velha, mas ela já não estava mais lá. Olhou para os quatros cantos, a velha desaparecera em meio ao sol quente daquela quinta-feira. Como poeira naquele asfalto, a velha sumira diante do mundo, levada pelo vento quente. Como era de tentar justificar tudo José Augusto formava pensamentos desconexos para tentar compreender aquela história: foi o sol, ele pensava, o calor muda a visão e a realidade, apenas pode ser isso, assim como os prédios distorcidos, a velha não passava de uma distorção da realidade, existem algumas teorias físicas que apontam distorções do espaço-tempo, talvez a velha fosse uma extensão dessas distorções, pensava com a cabeça de um físico teórico. Continuou andando pelas cimentadas ruas, o sol queimava, mas ainda andava com passos firmes, formulando outras teorias sobre as distorções do continuum espaço-tempo. Absorto nessas ideias, ele não percebeu que apesar do sol incidir obliquamente sobre seu corpo, ele não tinha sombra, um fato muito mais curioso, haja visto que a velha caminhava logo atrás dele, sem nenhum som, ou seja seu desaparecimento não valia a pena ser investigado porque já reaparecera. Sob o sol forte, ele, enfim, chegou em frente à funerária, uma casa azul, com algumas flores amarelas na entrada e uma árvore murcha. José entrou fazendo o sinal da cruz.
“José”. Helena, há quanto tempo; Helena usava a típica roupa de viúva; negra, usava um véu sobre a cabeça branco que destoava, mas era o mais típica possível. Havia dois vasos com flores vermelhas na sala, no caixão do defunto, mais flores vermelhas e ao redor vários olhos vermelhos e inchados de choro. Perto do caixão estava a mesma velha corcunda do vestido florido, ela abriu o mesmo desdentado sorriso amarelo e José Augusto atônico, desviou o olhar das chamas que ardiam entres os furos de seu sorriso. O que foi José? Parece que viu um fantasma. Não é nada... não é nada, Helena. Ela tinha o nariz e os olhos verdes avermelhados, possivelmente do choro, pensava José. A idade não havia sido severa com Helena, ela ainda continuava bonita quando nos tempos da juventude. Ela um tanto apressada, com medo de não ter outra oportunidade, ela tirou do bolso uma pequena foto e disse: José, o Leonardo pediu para eu te entregar. Ela então entregou a foto amarelada: José e Leonardo jovens, em tempos de faculdade, sentados sobre o capô de um gol branco, José ria e Leonardo sorria olhando para baixo, o sol incidia sobre o vidro e aquele momento ficou capturado como uma alegre lembrança. Bons tempos, do que será que ele morreu? Eu pergunto? É rápido...ele olhou o nariz vermelho e subitamente sua coragem cedera, não, não pergunto, do que adianta saber, em que isso mudaria a situação?
Ele nunca me contou o porquê de vocês terem brigado, disse Helena com um certo tom de inocência na voz revelando seu inerente desejo de saber o porquê de tão bons amigos terem parado de se falar repentinamente, faz tanto tempo- disse lentamente José Augusto- eu nem lembro o motivo... eu devia ter pedido desculpas, ele olhava para os azulejos à portuguesa do chão. Ele também deveria, disse Helena abrindo um sorriso de complacência, sabendo da personalidade cabeça-dura de seu finado marido. Eles se despediram de uma forma silenciosa, Helena foi receber outros que chegavam, José sentou na cadeira de plástico bamba do canto esquerdo, com a foto na mão direita, que manuseava incessantemente entre os dedos, ele olhava fixamente para o caixão, assim como para a velha. Permaneceu sentando no canto por longos trinta minutos, alheio ao mundo; revivendo o garoto solitário que ficou amigo do garoto popular, dos jovens na faculdade, das alegres brincadeiras e queria lembrar o motivo da briga, mas não lembrava, fixava os olhos cansados sobre a foto, esquecera da velha por um momento, tentava lembrar com todas as suas forças o motivo da briga, mas não lembrava. Revisitando suas diáfanas memórias de amizade e juventude, dos namoros e diversões, de seu melhor amigo improvável, fez com que escorresse, por sua face que já enrugava, uma lágrima, somente uma, mas uma escorreu.
Levantou-se, foi-se embora lentamente, sem ninguém perceber, abriu a porta e saiu da funerária, também fazendo o sinal da cruz. A velha do sorriso amarelo o acompanhou; passou pela árvore murcha e as flores da entrada, sob o sol ainda fervente, voltou ao seu apartamento, alheio ao mundo, despercebendo as mudanças que os prédios sofriam, deixando a forma de prismas retos, para uma forma arredondada e curvada. A velha corcunda que o acompanhava, fazia o papel de sua sombra que inexplicavelmente sumira. José Augusto normalmente iria criar teorias científicas, filosóficas ou qualquer outro motivo para aqueles momentos, porém absorvido no passado que revivia em lembranças não pensava nisso, abriu a porta do seu apartamento que rangeu como um último grito de um moribundo, sentia em seu peito uma necessidade de escrever, sem trocar a roupa, comer ou beber água, encaminhou-se ao escritório, colocou a foto em cima da bancada, sentou em frente ao computador, a velha do sorriso amarelo ficara no canto do cômodo observando-o trabalhar, o seu sorriso era cada vez mais macabro, mas o escritor nada notava, apenas digitava, tudo que sentira naquela revisitação de suas memórias. José Augusto escrevera, até o anoitecer e além, o livro de sua vida: “Duas vozes”, a lua já estava alta e as estrelas cantavam, sentiu um grande sono e caiu sobre o teclado dormindo, com um sorriso escancarado, reconhecendo que escrevera uma obra digna de autores como Proust, Machado e Joyce, quem sabe estaria ele ao lado deles, após aquele livro.
A velha aproximou-se, deu-lhe um abraço e trouxe um pequeno cobertor do quarto para José, por uma última vez ela abriu o sorriso amarelo: É uma história bonita. Parabéns, José Augusto. Disse com sua voz fria e profunda que ecoava em uníssono com o silêncio do quarto frio.
“Duas vozes” virou um sucesso, falava-se dela nas ruas, na tevê, ganhara a aclamação de crítica e público, suas passagens eram recitadas por jovens e velhos e até sua abertura, que para os leitores era tão icônica, virou frase de para-choque de caminhão e tatuagens na pele de muitos que nunca viram o rosto de José Augusto, a frase era mais ou menos assim: “Cuide de suas lembranças, elas são o cemitério que você leva na cabeça”.
“Duas vozes” era claramente uma versão poética de sua amizade com Leonardo e todas as aventuras de infância, juventude e maturidade pelas quais passaram. Os críticos que a aclamaram depois, perceberam facilmente essa criação poética das lembranças e suas semelhanças com a realidade. Assim como destacam que foi escrita na quente quinta-feira do funeral de Leonardo e da morte de José Augusto.
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2020.01.16 01:33 KNWRV O Funeral

Na estante de madeira, uma coleção de livros; uma televisão sobre a bancada, lâmpada fosca de tungstênio, ele se encontrava deitado sobre o teclado do computador, semi-desperto, na tela do computador se lia: “A vida e a morte de zdweddddddd...”. José Augusto era escritor, vivia de pequenos contos, algumas traduções aqui e outras ali. Dava pra pagar o pequeno apartamento em que vivia. Não tinha mais companhia, terminara com a namorada, o cachorro Tufão morreu há um mês. Vivia, ainda que mal vivia.
Prim,Prim...Ah! Acordou de sobressalto, era aquele maldito telefone, pra quê pagava aquela linha? Ninguém mais ligava ali, bom mas alguém ligava... Foi caminhando zonzo, no andar dos bêbados. Alô! É da casaa do senhor José Augustoo? – falava como se puxasse a última vogal de algumas palavras ou era a ligação- É sim. Quem fala? É Helena, mulher do Leonardo. Do Leonardo? Como ele tá? Já faz muito tempo que eu falei com ele! É assim...humf,humf... ele saiu dessa para uma melhor- disse entre choramingos. Meu deus. O funeral vai ser hoje à tarde, uma da tarde, seria bom se você aparecesse no funeral, ele pediu que eu te entregasse algo. Eu vou sim, claro que vou- falava estupefato- Tá certo... Tá certo. Funerária Jerusalém. Tá certo.
Morto, defunto, funeral... hoje? Uma hora? Mas como? Quando? Ele tava doente? Por que ele não falou nada? Faz o quê? Cinco anos? Seis? Sentou-se consternado, novamente, em frente do computador. Eram oito horas e trinta minutos, depois dessa mórbida conversa sentiu seu lábio rachado como as terras áridas do deserto, levantou-se da cadeira, a visão ficou turva e sentiu uma certa vertigem. Escuridão, tudo negro... morte? Morte? Não, ainda não. Andou meio bambo até a cozinha, retirou uma vasilha de água da geladeira. Bebeu direto dela, os copos estavam sujos. Funerária Jerusalém. Eu vou ter que pesquisar onde fica. Voltou ao quarto em duas passadas, sentou todo afobado, abriu o navegador, digitou no site de busca: Funerária Jerusalém. Descobriu que ficava na rua Azul do bairro que vivia, eram três quadras de distância, iria a pé, estava decidido.
Preto, é claro! Tem que ir de preto. Não poderia ir com a regata branca amarelada e esburacada na altura das axilas e nem mesmo o short florido que trajava no momento. Saiu do cômodo e voou pelo quarto para o armário. Cadê? Cadê? Aqui. Tirou uma amassada camisa do armário. Eu passo? É tenho que passar, mas primeiro a calça. Cadê? Cadê? Aqui! Pegou uma calça negra, mas com um buraco na parte esquerda da calça. Tem outra? Não, não tem. Droga! Jogou a calça e a camisa na cama. Meias? Precisa de meias pretas? Melhor né? Cadê? Cadê? Não tem, branco é tranquilo, é só a meia, pegou o único tênis que tinha; claramente preto. O tênis estava deplorável, a camisa amassada e a calça furada, mas era o que ele tinha.
Tem que passar a camisa... passo? Eu passo... não pra quê? Ninguém vai reparar, ninguém sabe que José Augusto é apenas um fracassado de quarenta anos, ninguém sabe, nem saberá. Que horas são? Olhou o relógio, já eram doze horas, mas já? Quanto tempo foi perdido nas roupas? Talvez uma fenda o tempo se abriu e me sugou para dentro e eu não percebi? Talvez o preto fosse uma espécie de cor sagrada em que o contato possibilitava romper as barreiras da realidade, os questionamentos fluíam da cabeça de José Augusto tomando forma na realidade, enfim concluía sempre seus pensamentos com um: “Hmm... devo escrever uma história sobre isso”. Já eram doze horas, isso lhe era inegável, ainda que tentasse justificar com ideias de ficção científica. É realmente não dá para passar. Voltou à cozinha; abriu a geladeira, tinha um pequeno prato com um pedaço de carne, pegou a margarina, caminhou até o fogão, ligou-o, chama alta, derramou quase toda a margarina na frigideira, fritou o bife, o boi morto ardia no metal, chiando, o som agudo causava certa irritação em seus ouvidos, levou o dedo ao ouvido, evitando o som que em poucos segundos cessou. Cortou um pedaço de pão velho perdido pela cozinha em uma cesta perto da geladeira, pôs a carne nele, comeu em duas mordidas. Tomo banho? Cheirou-se, não havia odor algum, não, só troco de roupa. Voltou ao quarto, trocou o folgado short que usava pela camisa amassada e a calça rasgada. Era hora de ir ao funeral.
Saiu do apartamento, trancou a porta, desceu as escadas, abriu o pequeno portão. Começou a andar no quarteirão, o sol estava queimando, os prédios mais distantes apareciam em formas distorcidas em meio ao calor como se fossem visões de uma realidade que nunca existira. Passou o primeiro cruzamento; faltavam três; uma velha corcunda vestida com um vestido florido e com cabelos brancos que pareciam brilhar em meio ao sol esperava no segundo cruzamento, ela quer atravessar? Ajudar uma velha, eu sou o quê, um escoteiro? Isso é tão ridículo. José confrontava a ideia de ajudar uma velha a atravessar a rua e não fazer nada, não importava sua escolha ambas aos seus olhos lhe pareciam ridículas, a primeira era algo quase que irreal, algo como um drama de uma história sem sal, típicas do seu trabalho de escritor menor; a segunda porque em nada mudaria o destino das estrelas no universo, uma pequena ação em uma rua tão pequena, nada poderia mudar o significado do mundo, porém alguma ação de José Augusto já havia mudado o universo? Ele pesava ambas com cuidado, agindo com uma balança perfeitamente regrada, ele sentia o que cada uma poderia causar: no fim concluiu que ajudar ou não ajudar não importava.
Quem sabe a primeira me compre um lugar no céu. Acreditava no céu? Isso não se sabe, nem ele sabia disse ao certo. José ia à igreja algumas vezes, sabia decorado alguns salmos, o pai-nosso, a ave-maria, credo e mais algumas, o tempo que passara na Eucaristia e em sua Crisma, lhe fora cansativo, porém internalizara bem os comandos de Dona Susana, mas não chegou a concluir se tinha uma fé verdadeira ou imposta, a verdade que nem ele sabia no que acreditava: às vezes se baseava puramente na ciência outras vezes falava de coisas imateriais e justificava com destino e outras coisas assim. Era um ser curioso, um escritor sem muito valor, mas bastante curioso.
Com as dúvidas na cabeça e o sol sobre a cabeça, ele se aproximou da velha corcunda. Senhora quer ajuda? Obrigado, meu filho.- disse abrindo um sorriso com os dentes amarelos, demarcados pela falta de alguns, entre os buracos parecia haver um fogo que ardia de dentro de seu ser. Ele a pegou em sua mão, a mão era fria, como se ele sentisse a mão do falecido que veria no funeral. Cuidadosamente, primeiro um pé e depois um outro, cuidado com os carros. Senhora, não precisa se apressar, vamos devagar. Isso, devagar. A velha somente ficava calada, mostrando seu sorriso furado e amarelo. Enfim atravessaram a rua, com certa lentidão típica daqueles que atravessam para o outro lado da rua. Largou a mão fria já na calçada, olhou os olhos da velha que mais pareciam tragar toda a luz e não emitir nenhuma, desafiando os princípios físicos e disse: A senhora tem que tomar cuidad... Tá falando com quem otário?! Disse um garoto com boné para trás que passava pela rua.
José Augusto desviou seu olhar para o jovem que passou e depois retornou para onde deveria estar a velha, mas ela já não estava mais lá. Olhou para os quatros cantos, a velha desaparecera em meio ao sol quente daquela quinta-feira. Como poeira naquele asfalto, a velha sumira diante do mundo, levada pelo vento quente. Como era de tentar justificar tudo José Augusto formava pensamentos desconexos para tentar compreender aquela história: foi o sol, ele pensava, o calor muda a visão e a realidade, apenas pode ser isso, assim como os prédios distorcidos, a velha não passava de uma distorção da realidade, existem algumas teorias físicas que apontam distorções do espaço-tempo, talvez a velha fosse uma extensão dessas distorções, pensava com a cabeça de um físico teórico. Continuou andando pelas cimentadas ruas, o sol queimava, mas ainda andava com passos firmes, formulando outras teorias sobre as distorções do continuum espaço-tempo. Absorto nessas ideias, ele não percebeu que apesar do sol incidir obliquamente sobre seu corpo, ele não tinha sombra, um fato muito mais curioso, haja visto que a velha caminhava logo atrás dele, sem nenhum som, ou seja seu desaparecimento não valia a pena ser investigado porque já reaparecera. Sob o sol forte, ele, enfim, chegou em frente à funerária, uma casa azul, com algumas flores amarelas na entrada e uma árvore murcha. José entrou fazendo o sinal da cruz.
“José”. Helena, há quanto tempo; Helena usava a típica roupa de viúva; negra, usava um véu sobre a cabeça branco que destoava, mas era o mais típica possível. Havia dois vasos com flores vermelhas na sala, no caixão do defunto, mais flores vermelhas e ao redor vários olhos vermelhos e inchados de choro. Perto do caixão estava a mesma velha corcunda do vestido florido, ela abriu o mesmo desdentado sorriso amarelo e José Augusto atônico, desviou o olhar das chamas que ardiam entres os furos de seu sorriso. O que foi José? Parece que viu um fantasma. Não é nada... não é nada, Helena. Ela tinha o nariz e os olhos verdes avermelhados, possivelmente do choro, pensava José. A idade não havia sido severa com Helena, ela ainda continuava bonita quando nos tempos da juventude. Ela um tanto apressada, com medo de não ter outra oportunidade, ela tirou do bolso uma pequena foto e disse: José, o Leonardo pediu para eu te entregar. Ela então entregou a foto amarelada: José e Leonardo jovens, em tempos de faculdade, sentados sobre o capô de um gol branco, José ria e Leonardo sorria olhando para baixo, o sol incidia sobre o vidro e aquele momento ficou capturado como uma alegre lembrança. Bons tempos, do que será que ele morreu? Eu pergunto? É rápido...ele olhou o nariz vermelho e subitamente sua coragem cedera, não, não pergunto, do que adianta saber, em que isso mudaria a situação?
Ele nunca me contou o porquê de vocês terem brigado, disse Helena com um certo tom de inocência na voz revelando seu inerente desejo de saber o porquê de tão bons amigos terem parado de se falar repentinamente, faz tanto tempo- disse lentamente José Augusto- eu nem lembro o motivo... eu devia ter pedido desculpas, ele olhava para os azulejos à portuguesa do chão. Ele também deveria, disse Helena abrindo um sorriso de complacência, sabendo da personalidade cabeça-dura de seu finado marido. Eles se despediram de uma forma silenciosa, Helena foi receber outros que chegavam, José sentou na cadeira de plástico bamba do canto esquerdo, com a foto na mão direita, que manuseava incessantemente entre os dedos, ele olhava fixamente para o caixão, assim como para a velha. Permaneceu sentando no canto por longos trinta minutos, alheio ao mundo; revivendo o garoto solitário que ficou amigo do garoto popular, dos jovens na faculdade, das alegres brincadeiras e queria lembrar o motivo da briga, mas não lembrava, fixava os olhos cansados sobre a foto, esquecera da velha por um momento, tentava lembrar com todas as suas forças o motivo da briga, mas não lembrava. Revisitando suas diáfanas memórias de amizade e juventude, dos namoros e diversões, de seu melhor amigo improvável, fez com que escorresse, por sua face que já enrugava, uma lágrima, somente uma, mas uma escorreu.
Levantou-se, foi-se embora lentamente, sem ninguém perceber, abriu a porta e saiu da funerária, também fazendo o sinal da cruz. A velha do sorriso amarelo o acompanhou; passou pela árvore murcha e as flores da entrada, sob o sol ainda fervente, voltou ao seu apartamento, alheio ao mundo, despercebendo as mudanças que os prédios sofriam, deixando a forma de prismas retos, para uma forma arredondada e curvada. A velha corcunda que o acompanhava, fazia o papel de sua sombra que inexplicavelmente sumira. José Augusto normalmente iria criar teorias científicas, filosóficas ou qualquer outro motivo para aqueles momentos, porém absorvido no passado que revivia em lembranças não pensava nisso, abriu a porta do seu apartamento que rangeu como um último grito de um moribundo, sentia em seu peito uma necessidade de escrever, sem trocar a roupa, comer ou beber água, encaminhou-se ao escritório, colocou a foto em cima da bancada, sentou em frente ao computador, a velha do sorriso amarelo ficara no canto do cômodo observando-o trabalhar, o seu sorriso era cada vez mais macabro, mas o escritor nada notava, apenas digitava, tudo que sentira naquela revisitação de suas memórias. José Augusto escrevera, até o anoitecer e além, o livro de sua vida: “Duas vozes”, a lua já estava alta e as estrelas cantavam, sentiu um grande sono e caiu sobre o teclado dormindo, com um sorriso escancarado, reconhecendo que escrevera uma obra digna de autores como Proust, Machado e Joyce, quem sabe estaria ele ao lado deles, após aquele livro.
A velha aproximou-se, deu-lhe um abraço e trouxe um pequeno cobertor do quarto para José, por uma última vez ela abriu o sorriso amarelo: É uma história bonita. Parabéns, José Augusto. Disse com sua voz fria e profunda que ecoava em uníssono com o silêncio do quarto frio.
“Duas vozes” virou um sucesso, falava-se dela nas ruas, na tevê, ganhara a aclamação de crítica e público, suas passagens eram recitadas por jovens e velhos e até sua abertura, que para os leitores era tão icônica, virou frase de para-choque de caminhão e tatuagens na pele de muitos que nunca viram o rosto de José Augusto, a frase era mais ou menos assim: “Cuide de suas lembranças, elas são o cemitério que você leva na cabeça”.
“Duas vozes” era claramente uma versão poética de sua amizade com Leonardo e todas as aventuras de infância, juventude e maturidade pelas quais passaram. Os críticos que a aclamaram depois, perceberam facilmente essa criação poética das lembranças e suas semelhanças com a realidade. Assim como destacam que foi escrita na quente quinta-feira do funeral de Leonardo e da morte de José Augusto.
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2020.01.10 16:41 KNWRV Vejam oq vcs acham desse meu conto

O funeral
Na estante de madeira, uma coleção de livros; uma televisão sobre a bancada, lâmpada fosca de tungstênio, ele se encontrava deitado sobre o teclado do computador, semi-desperto, na tela do computador se lia: “A vida e a morte de zdweddddddd...”. José Augusto era escritor, vivia de pequenos contos, algumas traduções aqui e outras ali. Dava pra pagar o pequeno apartamento em que vivia. Não tinha mais companhia, terminara com a namorada, o cachorro Tufão morreu há um mês. Vivia, ainda que mal vivia.
Prim,Prim...Ah! Acordou de sobressalto, era aquele maldito telefone, pra quê pagava aquela linha? Ninguém mais ligava ali, bom mas alguém ligava... Foi caminhando zonzo, no andar dos bêbados. Alô! É da casaa do senhor José Augustoo? – falava como se puxasse a última vogal de algumas palavras ou era a ligação- É sim. Quem fala? É Helena, mulher do Leonardo. Do Leonardo? Como ele tá? Já faz muito tempo que eu falei com ele! É assim...humf,humf... ele saiu dessa para uma melhor- disse entre choramingos. Meu deus. O funeral vai ser hoje à tarde, uma da tarde, seria bom se você aparecesse no funeral, ele pediu que eu te entregasse algo. Eu vou sim, claro que vou- falava estupefato- Tá certo... Tá certo. Funerária Jerusalém. Tá certo.
Morto, defunto, funeral... hoje? Uma hora? Mas como? Quando? Ele tava doente? Por que ele não falou nada? Faz o quê? Cinco anos? Seis? Sentou-se consternado, novamente, em frente do computador. Eram oito horas e trinta minutos, depois dessa mórbida conversa sentiu seu lábio rachado como as terras áridas do deserto, levantou-se da cadeira, a visão ficou turva e sentiu uma certa vertigem. Escuridão, tudo negro... morte? Morte? Não, ainda não. Andou meio bambo até a cozinha, retirou uma vasilha de água da geladeira. Bebeu direto dela, os copos estavam sujos. Funerária Jerusalém. Eu vou ter que pesquisar onde fica. Voltou ao quarto em duas passadas, sentou todo afobado, abriu o navegador, digitou no site de busca: Funerária Jerusalém. Descobriu que ficava na rua Azul do bairro que vivia, eram três quadras de distância, iria a pé, estava decidido.
Preto, é claro! Tem que ir de preto. Não poderia ir com a regata branca amarelada e esburacada na altura das axilas e nem mesmo o short florido que trajava no momento. Saiu do cômodo e voou pelo quarto para o armário. Cadê? Cadê? Aqui. Tirou uma amassada camisa do armário. Eu passo? É tenho que passar, mas primeiro a calça. Cadê? Cadê? Aqui! Pegou uma calça negra, mas com um buraco na parte esquerda da calça. Tem outra? Não, não tem. Droga! Jogou a calça e a camisa na cama. Meias? Precisa de meias pretas? Melhor né? Cadê? Cadê? Não tem, branco é tranquilo, é só a meia, pegou o único tênis que tinha; claramente preto. O tênis estava deplorável, a camisa amassada e a calça furada, mas era o que ele tinha.
Tem que passar a camisa... passo? Eu passo... não pra quê? Ninguém vai reparar, ninguém sabe que José Augusto é apenas um fracassado de quarenta anos, ninguém sabe, nem saberá. Que horas são? Olhou o relógio, já eram doze horas, mas já? Quanto tempo foi perdido nas roupas? Talvez uma fenda o tempo se abriu e me sugou para dentro e eu não percebi? Talvez o preto fosse uma espécie de cor sagrada em que o contato possibilitava romper as barreiras da realidade, os questionamentos fluíam da cabeça de José Augusto tomando forma na realidade, enfim concluía sempre seus pensamentos com um: “Hmm... devo escrever uma história sobre isso”. Já eram doze horas, isso lhe era inegável, ainda que tentasse justificar com ideias de ficção científica. É realmente não dá para passar. Voltou à cozinha; abriu a geladeira, tinha um pequeno prato com um pedaço de carne, pegou a margarina, caminhou até o fogão, ligou-o, chama alta, derramou quase toda a margarina na frigideira, fritou o bife, o boi morto ardia no metal, chiando, o som agudo causava certa irritação em seus ouvidos, levou o dedo ao ouvido, evitando o som que em poucos segundos cessou. Cortou um pedaço de pão velho perdido pela cozinha em uma cesta perto da geladeira, pôs a carne nele, comeu em duas mordidas. Tomo banho? Cheirou-se, não havia odor algum, não, só troco de roupa. Voltou ao quarto, trocou o folgado short que usava pela camisa amassada e a calça rasgada. Era hora de ir ao funeral.
Saiu do apartamento, trancou a porta, desceu as escadas, abriu o pequeno portão. Começou a andar no quarteirão, o sol estava queimando, os prédios mais distantes apareciam em formas distorcidas em meio ao calor como se fossem visões de uma realidade que nunca existira. Passou o primeiro cruzamento; faltavam três; uma velha corcunda vestida com um vestido florido e com cabelos brancos que pareciam brilhar em meio ao sol esperava no segundo cruzamento, ela quer atravessar? Ajudar uma velha, eu sou o quê, um escoteiro? Isso é tão ridículo. José confrontava a ideia de ajudar uma velha a atravessar a rua e não fazer nada, não importava sua escolha ambas aos seus olhos lhe pareciam ridículas, a primeira era algo quase que irreal, algo como um drama de uma história sem sal, típicas do seu trabalho de escritor menor; a segunda porque em nada mudaria o destino das estrelas no universo, uma pequena ação em uma rua tão pequena, nada poderia mudar o significado do mundo, porém alguma ação de José Augusto já havia mudado o universo? Ele pesava ambas com cuidado, agindo com uma balança perfeitamente regrada, ele sentia o que cada uma poderia causar: no fim concluiu que ajudar ou não ajudar não importava.
Quem sabe a primeira me compre um lugar no céu. Acreditava no céu? Isso não se sabe, nem ele sabia disse ao certo. José ia à igreja algumas vezes, sabia decorado alguns salmos, o pai-nosso, a ave-maria, credo e mais algumas, o tempo que passara na Eucaristia e em sua Crisma, lhe fora cansativo, porém internalizara bem os comandos de Dona Susana, mas não chegou a concluir se tinha uma fé verdadeira ou imposta, a verdade que nem ele sabia no que acreditava: às vezes se baseava puramente na ciência outras vezes falava de coisas imateriais e justificava com destino e outras coisas assim. Era um ser curioso, um escritor sem muito valor, mas bastante curioso.
Com as dúvidas na cabeça e o sol sobre a cabeça, ele se aproximou da velha corcunda. Senhora quer ajuda? Obrigado, meu filho.- disse abrindo um sorriso com os dentes amarelos, demarcados pela falta de alguns, entre os buracos parecia haver um fogo que ardia de dentro de seu ser. Ele a pegou em sua mão, a mão era fria, como se ele sentisse a mão do falecido que veria no funeral. Cuidadosamente, primeiro um pé e depois um outro, cuidado com os carros. Senhora, não precisa se apressar, vamos devagar. Isso, devagar. A velha somente ficava calada, mostrando seu sorriso furado e amarelo. Enfim atravessaram a rua, com certa lentidão típica daqueles que atravessam para o outro lado da rua. Largou a mão fria já na calçada, olhou os olhos da velha que mais pareciam tragar toda a luz e não emitir nenhuma, desafiando os princípios físicos e disse: A senhora tem que tomar cuidad... Tá falando com quem otário?! Disse um garoto com boné para trás que passava pela rua.
José Augusto desviou seu olhar para o jovem que passou e depois retornou para onde deveria estar a velha, mas ela já não estava mais lá. Olhou para os quatros cantos, a velha desaparecera em meio ao sol quente daquela quinta-feira. Como poeira naquele asfalto, a velha sumira diante do mundo, levada pelo vento quente. Como era de tentar justificar tudo José Augusto formava pensamentos desconexos para tentar compreender aquela história: foi o sol, ele pensava, o calor muda a visão e a realidade, apenas pode ser isso, assim como os prédios distorcidos, a velha não passava de uma distorção da realidade, existem algumas teorias físicas que apontam distorções do espaço-tempo, talvez a velha fosse uma extensão dessas distorções, pensava com a cabeça de um físico teórico. Continuou andando pelas cimentadas ruas, o sol queimava, mas ainda andava com passos firmes, formulando outras teorias sobre as distorções do continuum espaço-tempo. Absorto nessas ideias, ele não percebeu que apesar do sol incidir obliquamente sobre seu corpo, ele não tinha sombra, um fato muito mais curioso, haja visto que a velha caminhava logo atrás dele, sem nenhum som, ou seja seu desaparecimento não valia a pena ser investigado porque já reaparecera. Sob o sol forte, ele, enfim, chegou em frente à funerária, uma casa azul, com algumas flores amarelas na entrada e uma árvore murcha. José entrou fazendo o sinal da cruz.
“José”. Helena, há quanto tempo; Helena usava a típica roupa de viúva; negra, usava um véu sobre a cabeça branco que destoava, mas era o mais típica possível. Havia dois vasos com flores vermelhas na sala, no caixão do defunto, mais flores vermelhas e ao redor vários olhos vermelhos e inchados de choro. Perto do caixão estava a mesma velha corcunda do vestido florido, ela abriu o mesmo desdentado sorriso amarelo e José Augusto atônico, desviou o olhar das chamas que ardiam entres os furos de seu sorriso. O que foi José? Parece que viu um fantasma. Não é nada... não é nada, Helena. Ela tinha o nariz e os olhos verdes avermelhados, possivelmente do choro, pensava José. A idade não havia sido severa com Helena, ela ainda continuava bonita quando nos tempos da juventude. Ela um tanto apressada, com medo de não ter outra oportunidade, ela tirou do bolso uma pequena foto e disse: José, o Leonardo pediu para eu te entregar. Ela então entregou a foto amarelada: José e Leonardo jovens, em tempos de faculdade, sentados sobre o capô de um gol branco, José ria e Leonardo sorria olhando para baixo, o sol incidia sobre o vidro e aquele momento ficou capturado como uma alegre lembrança. Bons tempos, do que será que ele morreu? Eu pergunto? É rápido...ele olhou o nariz vermelho e subitamente sua coragem cedera, não, não pergunto, do que adianta saber, em que isso mudaria a situação?
Ele nunca me contou o porquê de vocês terem brigado, disse Helena com um certo tom de inocência na voz revelando seu inerente desejo de saber o porquê de tão bons amigos terem parado de se falar repentinamente, faz tanto tempo- disse lentamente José Augusto- eu nem lembro o motivo... eu devia ter pedido desculpas, ele olhava para os azulejos à portuguesa do chão. Ele também deveria, disse Helena abrindo um sorriso de complacência, sabendo da personalidade cabeça-dura de seu finado marido. Eles se despediram de uma forma silenciosa, Helena foi receber outros que chegavam, José sentou na cadeira de plástico bamba do canto esquerdo, com a foto na mão direita, que manuseava incessantemente entre os dedos, ele olhava fixamente para o caixão, assim como para a velha. Permaneceu sentando no canto por longos trinta minutos, alheio ao mundo; revivendo o garoto solitário que ficou amigo do garoto popular, dos jovens na faculdade, das alegres brincadeiras e queria lembrar o motivo da briga, mas não lembrava, fixava os olhos cansados sobre a foto, esquecera da velha por um momento, tentava lembrar com todas as suas forças o motivo da briga, mas não lembrava. Revisitando suas diáfanas memórias de amizade e juventude, dos namoros e diversões, de seu melhor amigo improvável, fez com que escorresse, por sua face que já enrugava, uma lágrima, somente uma, mas uma escorreu.
Levantou-se, foi-se embora lentamente, sem ninguém perceber, abriu a porta e saiu da funerária, também fazendo o sinal da cruz. A velha do sorriso amarelo o acompanhou; passou pela árvore murcha e as flores da entrada, sob o sol ainda fervente, voltou ao seu apartamento, alheio ao mundo, despercebendo as mudanças que os prédios sofriam, deixando a forma de prismas retos, para uma forma arredondada e curvada. A velha corcunda que o acompanhava, fazia o papel de sua sombra que inexplicavelmente sumira. José Augusto normalmente iria criar teorias científicas, filosóficas ou qualquer outro motivo para aqueles momentos, porém absorvido no passado que revivia em lembranças não pensava nisso, abriu a porta do seu apartamento que rangeu como um último grito de um moribundo, sentia em seu peito uma necessidade de escrever, sem trocar a roupa, comer ou beber água, encaminhou-se ao escritório, colocou a foto em cima da bancada, sentou em frente ao computador, a velha do sorriso amarelo ficara no canto do cômodo observando-o trabalhar, o seu sorriso era cada vez mais macabro, mas o escritor nada notava, apenas digitava, tudo que sentira naquela revisitação de suas memórias. José Augusto escrevera, até o anoitecer e além, o livro de sua vida: “Duas vozes”, a lua já estava alta e as estrelas cantavam, sentiu um grande sono e caiu sobre o teclado dormindo, com um sorriso escancarado, reconhecendo que escrevera uma obra digna de autores como Proust, Machado e Joyce, quem sabe estaria ele ao lado deles, após aquele livro.
A velha aproximou-se, deu-lhe um abraço e trouxe um pequeno cobertor do quarto para José, por uma última vez ela abriu o sorriso amarelo: É uma história bonita. Parabéns, José Augusto. Disse com sua voz fria e profunda que ecoava em uníssono com o silêncio do quarto frio.
“Duas vozes” virou um sucesso, falava-se dela nas ruas, na tevê, ganhara a aclamação de crítica e público, suas passagens eram recitadas por jovens e velhos e até sua abertura, que para os leitores era tão icônica, virou frase de para-choque de caminhão e tatuagens na pele de muitos que nunca viram o rosto de José Augusto, a frase era mais ou menos assim: “Cuide de suas lembranças, elas são o cemitério que você leva na cabeça”.
“Duas vozes” era claramente uma versão poética de sua amizade com Leonardo e todas as aventuras de infância, juventude e maturidade pelas quais passaram. Os críticos que a aclamaram depois, perceberam facilmente essa criação poética das lembranças e suas semelhanças com a realidade. Assim como destacam que foi escrita na quente quinta-feira do funeral de Leonardo e da morte de José Augusto.
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2019.03.06 20:20 kekogames Minha vida era uma bosta

Olá meu nome e Kevin lima tenho 17anos e queria compartilhar algumas experiências que eu tive nesses 6 anos,eu não sei pra quem contar isso então vou postar aqui.
2013-esse ano eu entrei no 6 ano e estava em uma escola nova,o nome da escola era instituto adventista de Manaus (vamo chamar de iam)na minha sala a maioria das pessoas era novata que nem eu então foi uma coisa nova para todo mundo,foi um ano bem diferente conseguir entrar num grupo de amigos que tinha umas 6 pessoas foi um ano legal
2014-ai as coisas começam a ficar piores estava no 7 ano, praticamente todos os meus amigos ou trocaram de sala ou saíram da escola.entao eu comecei o ano meio pra trás,eu era bem tímido e bem gordinho (e meio lezo)então não conseguia fazer amigos eu não falava com quase ninguém eu ficava no canto da sala jogando no celular contando as horas pra que a aula acabasse.em casa aonde eu realmente me divertia adora ficar no YouTube vendo vídeos de Minecraft do monark do Venom e etc.e no Minecraft eu tinha amigos, nos faziamos video chamadas no Skype eu passava mais de 7 horas só jogando com eles era muito divertido.voltando a escola teve uma vez que estávamos sem professor aí ficou um tempo livre,umas 5 pessoas na sala fizeram uma roda e começaram a conversar,aí do nada me chamaram eu peguei minha cadeira e fiquei um pouco com eles(não falei muito)aí do nada começaram a falar sobre namoro e essas coisas, aí uma garota perguntou se eu ainda era BV eu falei que sim,ela perguntou se eu queria beijar ela , então besta do jeito que eu era fiquei recusando (e rindo meio com vergonha) e todo mundo insistindo. No final eu voltei pro meu canto e eu não beijei ninguém.ate hoje eu me arrependo.
2015-foi a mesma coisa que 2014 porém foi um pouco melhor,eu tentei aproveitar o tempo que eu ficava sozinho na escola fazendo nada. Já que eu não fazia nada na hora do recreio (já que eu ainda não tinha amigos) e comecei a refletir um pouco mais sobre a vida ,comecei a me questionar mais sobre coisas como religião,teoria da conspiração,e principalmente como as pessoas se comportam socialmente,eu observava as pessoas e fazia várias anotações de como elas se comportavam sobre diversas situações.em casa eu continuava jogando com meus amigos até fiz um canal de Minecraft.
2016-esse ano foi mais ou menos eu comecei a fazer um diário de todas as coisas que aconteciam ,nesse ano comecei a amadurecer um pouco mais(esqueci de citar um fato importante eu tenho uma irmã que e dois ano mais velha que eu e ela era tudo que eu não era inteligente, engraçada,bonita. Eu não tinha ciúmes dela,porém eu achava ela bem chata.eu era conhecido na escola como "o irmão da Karen)um dia eu estava esperando minha condução eu ficava em uma parte sozinho enquanto a Karen ficava conversando com os amigos dela,aí chegou uma garota do 7 ano e começou a conversar comigo ela era bem legal o nome dela era Rebeca ela gostava de animes e essas merda,aí a Karen saiu do canto dela só pra ficar bagunçando comigo . No carro ela ficou fazendo piadas,até em casa e prós parentes ela enchia a porra do meu saco (filha da puta).então eu parei de falar com ela por que a Karen e uma vagabunda.efim o resto do ano foi uma merda continuavam sem amigos

2017-esse ano as coisas começam a mudar radicalmente,pois eu comecei a entender realmente como socializar com as pessoas , depois que eu percebi isso eu perdi praticamente toda minha timidez.ai eu parei de fazer anotações e comecei a tentar ser bom numa coisa que eu gostava, matemática eu era o melhor da turma quando se tratava em matemática pessoas que eu nunca sonhava em falar começam a falar comigo ,e professores começam a me admirar e me usam como exemplo ,eu senti uma sensação que eu nunca tinha sentido antes e uma maravilha.em casa eu começo a perder interesse no Minecraft e meus amigos da Internet ficam um pouco mais distantes a cada dia(menos um).na escola eu ainda não tinha amigos porém eu era meio que independente. Era menos pior que ser um anti-social Zé ninguém. Pois eu não tinha medo de falar o que eu pensava as pessoas se surpreendiam por isso.eu sempre tentava fazer ações que chama-sem atenção dos outros ,tipo teve uma. Vez que a professora falou"quem não quiser assistir a aula ,sai agora"eu me levantei peguei minha mochila e fui embora todo mundo ficou tipo "oloko,Boa muleke!" Foi legal.um sentimento que eu sentia era o de sair da escola.meu sonho do 6 ano até o 1 ano era sair daquela escola,mesmo que as coisas estivesem melhorando eu ainda me sentia sozinho .Foi por um milagre de Deus minha outra irmã (a minha irmã legal)estava vendo matrículas para escolas públicas.fiquei muito interessado nisso passei a noite inteira pesquisando sobre escolas estaduais (procurando quais eram as melhores) foi aí que eu vi as 5 melhores pesquisei no site de matrículas e não tinha vagas pra nenhuma delas ,porém eu não desisti e passei literalmente 5 horas atualizando a página até que finalmente apareceu uma vaga para a escola Marco Antônio Villaça uma escola de tempo integral (7:00ate17:30) eu chamei minha mãe pra mostrar que eu consegui aí eu fiz os procedimentos da página e consegui me matricular. Eu não acreditei naquilo eu finalmente fiquei livre do iam eu senti uma sensação de alívio tão grande com felicidade foi ótimo. No último dia de aula mandei a escola toma no cu gritei bem alto "vtnc escola de merda" foi bem legal
2018-esse ano foi o melhor da minha vida, finalmente estava livre do iam.novas pessoas,lugares, experiências.eu consegui da reset na minha vida , Agora eu vou fazer tudo que eu não fiz. O começo foi complicado pois eu tava tão acustumado a ser tratado como um merda que eu achei que eu seria recebido assim porém foi totalmente o contrário,quando cheguei na escola estava bem nervoso. Foi direcionado para quadra, todos os alunos estavam lá.eu fiquei sentado num canto até que começaram a chamar os alunos minha sala era o 2 ano 3 .eu entrei na sala eu vi pessoas conversando e outros que nem eu (novatos)fazendo nada ,a professora chega e fala para os novatos se apresentarem. Essa hora foi bem legal pois depois que eu falei e tal. Eu me senti bem mais confortável.ja que aconteceu muitas coisas vou resumir.nos primeiros 4 meses conheci toda escola e fiz várias amizades.apartir do 7 mês eu fiquei com uma garota durou uma semana mais foi bem legal .hoje às pessoas me conhecem por ser um cara meio louco que faz as coisas por impulso , eu sempre tentei falar com o máximo de pessoas possíveis então a maioria das pessoas já me conhecem a escola só tem 9 salas então da pra ter pelo menos 2 amigos em cada sala.essa escola pra mim e minha segunda casa sou muito grato a minha outra irmã e Deus por terem me ajudado a sair do iam
2019-estou indo para o 3 ano e já comecei a estabelecer várias metas como arrumar uma namorada,dar uma festa,passar no vestibular,ser o melhor da turma e ganhar um dinheiro extra.
Me desejem sorte
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